Escritosdoporto's Blog

Caderno dois

Posted in Uncategorized by Andreza Pereira on março 8, 2011

Eu não escrevo mais do Porto. Eu escrevo do Brasil.

Meu novo endereço:

http://cadernodois.wordpress.com/

Andreza

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Foi num dia de sol que eu deixei o Porto

Posted in Uncategorized by Andreza Pereira on março 2, 2011

Foi num dia de sol que eu deixei o Porto. Levando uma mala a mais que a bagagem permitida, deixando um ferro que não servia pra voltagem cuiabana, pensando em tudo o que coube numa cidade tão pequena.  O Porto comportou um sem número de minhas premières,ratificou as comidas que eu mais gosto, me trouxe línguas longínquas num mesmo vagão de metrô,a impressão de que o frio traz algum tipo de precisão no mover do corpo, inédito número de  diminutivos encadeados numa mesma frase ,uma língua subsistindo quase sem gerúndios, e amigos, bons amigos.

Sem escalas veio o Brasil e minha mãe linda me acenando na janela alta de vidro do aeroporto. Um lugar em que ninguém mais parava por alguns segundos pra entender o que eu estava dizendo. Onde as pessoas são tão diferentes entre si.  E em que recuperei a minha palidez ganha em um ano numa tarde de andar pelas calçadas.

Diga um verso bem bonito, dona Andreza, e sem adeus,sem adeus.

                                                         Sem Adeus, Porto. Bota no forno um pastel de nata pra mim.

Três quartos das horas do dia a vida deve usar pra se repetir

Posted in Uncategorized by Andreza Pereira on janeiro 8, 2011

                                  Igreja de Notre Dame, Paris, dezembro de 2010

Três quartos das horas do dia o mundo deve usar pra se repetir. Os lixeiros se esvaziam pra juntar lixo de novo. Os copos se limpam pra tocarem de novo as bocas. As parafinas que já se encurtaram pra subirem aos céus esperam o funcionário acordar pra darem lugar a novas fés. A arara carrega o véu que vai se arrastar pra uma nova jura amanhã. Três quartos das horas do dia o mundo deve usar pra se repetir.

No prato, o pão antecede uma nova fome.O cabelo esticado do embaraço nada tem em si de evitar um novo. A lâmina nada pode contra o mamífero que volta. Nem todo o ar chega para o peito que refluxa. Três quartos das horas do dia o corpo deve usar pra se repetir.

Há um estoque novo no almoxarifado com tinta azul fresca pros carimbos e cruzamentos treinados em ver placas amassadas. Há pontes exaustas de suicídio e pacotes de grãos habituados em medir a inflação. Ajuntamentos de anéis de bueiro e de boletins de ocorrência de feriado. Três quartos das horas do dia a cidade deve usar pra se repetir. 

O vê dos pássaros em bando é que consegue ver a ressaca das águas, os calos sonoros dos galos, o empilhar das circuferências dos girassóis, o esgaçar dos ventres, o acúmulo do sol que clareia o verde das folhas.

Talvez haja um depósito de vida usada. Cheio de adesivos que perderam a aderência, epiderme morta, ar já esquentado nos pulmões,segredos inutilizados, carbono de amores gastos, saias rotas, facas cegas e esperanças salobras. Enquanto houver espaço, a vida se repete. Se repete.

Três quartos das horas do  dia a vida deve usar pra se repetir.

Olhos pra Paris

Posted in Uncategorized by Andreza Pereira on janeiro 6, 2011

   Chega-se a Paris pisando um solo irrigado por um daqueles esquichos rodantes de jardim. Dentre baguetes, salto Luis XV,Binoche, espartilho, brioches pros famintos de pão, mon cherry, o despudor da liberdade guiando o povo, cabeças monárquicas, la vie en rose,pierrot e Bardot, não há imagem que baste. Nossos pobres olhos igualmente encharcados de coisas pra lembrar não têm descanso na cidade esguichada pro mundo.

   “Paris é um lugar em que se tem a impressão de já ter estado porque tantos filmes, livros e histórias se passaram nela” foi como começou o nosso guia holandês. Acrescidos aos lugares que se visita porque ali aconteceu a queda da Bastilha, ou por expor uma chama eterna que queima pelos mortos nunca identificados nas duas grandes guerras ou por guardar os restos mortais de Napoleão, são os a que você vai porque foi o bar onde a Amélie Poulain trabalhou ou a ponte ladeada de cadeados presos por casais que inscrevem suas iniciais e jogam as chaves no rio Sena, em que a Carrie  encontra o namorado com seu vestido de tule verde.

  Amparam os olhos os ouvidos cheios de francês. Uma sombrinha de rendas ornaria com essas mulheres chamadas de mademoiselles. De todos os  meus “Do you speak english?”, apenas uma resposta afirmativa assertiva pra contrastar com os inúmeros “um pouco” num francês  um tanto desgostoso.

 Pra além dos lugares e da língua, têm as pessoas saindo das padarias com grandes  baquetes embaixo do braço, os caminhos tão longos de escadas, passagens, viradas e Edith Piaf nos metrôs, os bolos em forma de tronco de árvore, a quantidade enorme de queijos no mercado, os olhos multiformes seguindo os olhos da Mona Lisa, o croissant em todo o canto, um pão que se chama escargot,os seis chaveirinhos da Torre Eiffel gritados por um euro, açucar em pedrinhas, a temperatura negativa (que eu não conseguia imaginar assim como a eternidade e o universo expandindo ninguém sabe pra onde), as entradas com banana seca, passas e lascas de coco,o vinho quente, a Maya e o Raj falando “bonjour”, os lugares-comuns assumidos em noites com tanta luz.

  E cobrindo olhos, ouvidos e pele teve a neve que caía inocente de sua ciência de primeira neve. A minha primeira neve nessa cidade que esguicha pro mundo inteiro e que eu levo em olhos sem descanso.

Uma praça no dia de Magusto

Posted in Uncategorized by Andreza Pereira on novembro 12, 2010

 

A praça não sabe que eu a cruzo todos os dias na volta para casa depois das aulas. E ao cruzá-la, ando atrás da maior reunião de pombos do meu trajeto cotidiano.Fatal e infantilmente, me lembro do trecho do Kundera  “Para um amor se tornar inesquecível é preciso que, desde o primeiro momento, os acasos se reúnam nele como os pássaros nos ombros de São Francisco de Assis.” Na minha cabeça, os pássaros em Assis são pombos. Kundera reabilitou-me os pombos pra sempre. Os pombos continuam a andar de seu jeito engraçado como se fosse no princípio,sem saber de Kundera, nem de mim. Todos os dias passos temerosos de doenças respiratórios se afastam deles. Mas  não têm nenhuma parte com Assis ou com o medo.

E têm os bancos e nos bancos, os namorados. E nas pessoas que passam em frente aos bancos algumas cabeças viradas de evitamento. E os bancos e os evitamentos me reescrevem uma crônica do Vinicius.No texto, ele defendia os namorados de um projeto de lei numa cidade do interior do Brasil que pretendia impedir que estivessem juntos nas praças. Vinicius dignificou-me os namorados nas praças pra sempre.Os bancos não sabem. Ao sentar sobre eles os namorados, só gemem lembrando-se do bosque natal, mas desconhecem toda a espécie de evitamentos e de sonetistas modernos.

No meio da praça, há um grande monumento, símbolo da invencibilidade do país face às invasões francesas. E o chumbo do homem armado no meio da grande figura nada tem de bélico.

Nos últimos meses,  era comum que no fim da praça houvesse uma camada de fumaça cheirosa. Na calçada em frente, assava-se castanhas numa banquinha. Longas filas se formavam pra comprar as castanhas vindas em sacos brancos de papel. Soube há poucos dias do Magusto,  uma festa tradicional do país em que se come castanhas e se bebe o vinho em novembro pelo dia de São Martinho, o onze. O fogo que queima as castanhas as amolece apesar de nada saber de santidade.

As flores brancas no meio das gramíneas nos canteiros da praça não sabem que cheiram ao perfume que trazemos no pescoço.

Post scriptum

Posted in Uncategorized by Andreza Pereira on outubro 28, 2010

Gosto muito de P.S’s. Não soube disso sempre. O esclarecimento veio quando uma colega me parou no meio da aula, olhando pro meu caderno e perguntou por que eu escrevia de baixo pra cima na folha. Respondi que não escrevia de baixo pra cima, mas as frases de baixo eram os meus P.S’s e a matéria mesmo era a parte de cima. Ela se contentou com a resposta e continuei anotando as coisas sobre algum assunto de teoria social. No intervalo, botei mais reparo naquela folha em que eu tinha mais P.S’s que matéria.

Anotar muito durante as aulas sempre foi o jeito mais pedagógico pra mim de absorver os conteúdos. Levo réguas e marca-textos de  cores diferentes pra fazer pequenos esquemas gráficos durante as exposições. E numa aula sobre as visões de mundo ocidentais,  posso pintar de verde o posicionamento marxista, de amarelo o positivista e de rosa o pós-moderno. E os triângulos, círculos dentro de círculos, tabelas e cores escolhidas têm que ter um sentido extra-visual, o que me ajuda a relacionar tudo depois. Daí, escolho verde pro marxismo porque alguma coisa do marxismo tem que me remeter ao verde e o mesmo com o amarelo e o rosa -como o marxismo defender o realismo estético e lembrar, assim, a natureza, ou o positivismo perceber uma uniformidade na história humana o que se relaciona ao primarismo e à unidade da cor amarela e ainda o rosa pós-moderno ter algo de industrial ou de pop arte de contestação dos paradigmas clássicos-. É todo um aparato de loucura à serviço da cognição.

Na faculdade de Jornalismo, somos treinados a escutar e anotar rápido porque não dá pra pedir pro entrevistado repetir as informações . Então, anotar durante a aula a matéria central, fazer esquemas geométricos coloridos e pontuar P.S’s tem no fim um sentido de simulação profissional encarada com uma tenacidade bruceleeniana. E afinal cada P.S tem algo de seu. Algo que não pôde se encaixar na linha-guia do pensamento professoral, mas nem por isso não mereça um lugar-celulose pra chamar de seu.

No meu caderno atual, dentre os P.S’s ordinários como bibliografias, datas de nascimento e morte de autores, trabalhos a fazer, significação de siglas, há alguns sobre os quais  passaria um marca-texto laranja (a cor para marcações especiais por razões que o leitor não merece expostas) e enquadraria em três tipos ideais:

1- P.S’s “Não sou daqui”

Acho que é o tipo mais recorrente nesse meu caderno . A questão é que tem muita coisa que não entendo nas aulas por ser de outro país. E tantas vezes os professores fazem piadas internas com os alunos e todo mundo morre de rir e enquanto isso eu estou debruçada no caderno fazendo um P.S. Uma vez  teve um jogo no final de semana e a professora chegou na aula segunda-feira com essa : “Braga reza, Lisboa brinca e Porto trabalha”. Geral achou engraçado. Não soube quem jogou, não soube a relação humorística da citação,mas pelo menos fiz meu P.S. pra tentar rir na próxima vez.

Além das piadas internas, o português daqui tem uns usos gramaticais que eu nunca vi mais gordos no Brasil, como isso de usar “imenso” como advérbio e “saber bem” com o sentido de “é bom”. Imagino o que os professores devem pensar ao me verem anotando alguma coisa no início de uma frase deles que ainda nem chegou à informação do conteúdo da matéria.”Gostei imenso!” “Achei imensa piada!” “É claro que sabe bem, mas é preciso ponderar pra decidir.”

E também entra nesse tipo toda e qualquer anotação de alguma coisa que eu acho diferente sob qualquer aspecto das nossas aulas no Brasil, como num pequeno diário de campo de uma excursão etnográfica. Meu último P.S. sobre isso foi: “Eles não têm o menor pudor de fazer sons de excreção nasal durante as aulas. Todo mundo tem lenços de papel, que são vendidos em pacotes enormes nos mercados”.

2-P.S’s “Vão achar meu caderno décadas depois da minha morte”

Esse é meu tipo preferido. Porque nele eu me vejo no direito de poder fazer anotações com um preciosismo tal a falsear que as minhas notas vão merecer atenção a alguém além de mim.  Nas faculdades de humanas, a gente passa  anos ouvindo sobre as manuscritos dos alunos das aulas de Weber, as perscrutações nos cadernos de campo de Malinowski entre os povos trobriandeses, as impressões escritas de Platão, que escreveu sobre Sócrates quando este mesmo não escreveu nada e fica com essa áurea das anotações. E a gente anota idéias sobre relações entre áreas e lampejos pra pesquisas como se elas tivessem  a gravidade das de um filósofo grego andando com a mão no queixo no meio de uma praça de Atenas ou a urgência das de um pensador medieval condenado pela Igreja e cujos pensamentos têm de ser passados adiante. “As aspas nos títulos jornalísticos demarcam o que deve ser lido fora do circuito comunicativo da linguagem”, “É possível estabelecer relação entre o estudo do estilo nas Ciências da Linguagem e o da cultura na Antropologia”, “É relevante o papel pedagógico dos brinquedos infantis na construção social do gênero”.

3-P.S’s “Destino: monografia”

Por fim, têm os meus P.S’s monográficos.  Porque o nosso objeto de pesquisa é um tipo laico(?) de amor e a gente o procura em todo lugar, em toda aula.Todos esses P.S’s levam um asterisco pra eu saber que eles podem ser úteis pra minha pesquisa. E um “a cor de luto quando um papa morre é a vermelha” dito durante uma aula de teoria da literatura em que se explicava  que o conceito de signo é socialmente partilhado pode ser um gancho pra um trabalho sobre a relação entre cultura e identidade psíquica.

A não ser que o professor discurse a partir de linhas mestras relatoriais  mentais invisíveis que o façam começar a fala no ponto 1 e dar o intervalo no sub-ponto 3.5 b)  haverá sempre espaços para P.S’s, porque eles são os true colors de uma aula.A eles hoje a minha estima, porque merecem mais do que estar no título de um comédia romântica hollywoodiana entre gente que não morreu e gente que já morreu.

Um outro passado

Posted in Uncategorized by Andreza Pereira on outubro 22, 2010

(Padrão dos Descobrimentos, Lisboa)

“E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem. Pero o melhor fruto que nela se pode fazer me parece que será salvar essa gente. E esta deve ser a principal semente que vossa alteza em ela deve lançar”

(Carta de Caminha)

Penso em como deve ser dormir sobre um passado de metrópole. Enquanto na quinta série decorávamos quais eram as únicas duas capitanias hereditárias que deram certo, o que era a lei do ventre-livre ou os nomes dos impostos pagos no tempo da mineração, os pequenos portugueses passam seus marca-textos amarelos sobre os países que Portugal conquistou. Devem no intervalo do jornal da noite pedir aos seus pais que ouçam pra ver se gravaram certo: Angola, Moçambique, Cabo-Verde, Guiné-Bissau, Timor Leste…E depois da prova, o menino cora por ouvir o riso dos colegas que não acreditam que ele tenha errado o mais fácil, ao esquecer de colocar na resposta o Brasil.

Enquanto as imagens feitas pelo Governo Federal ou pelo Banco do Brasil pra falar de nós nos feriados cívicos juntam sob um fundo de batuque os braços tricolores, a identidade portuguesa parece repousar no mar e nesse grande passado quinhentista. Um grande monumento marca em Lisboa a área da costa de onde saíram as caravelas em busca do “novo mundo”, o “Padrão dos Descobrimentos”. É uma dos pontos mais visitados do país e pintado  no chão ao seu lado está uma bússola e ainda próximo um museu marítimo a contar como os desenhos de estrelas mortas ajudaram os portugueses a não se perderem pelo caminho.

Inviável listar o número de praças com símbolos de navegação ou homens com espadas e cavalos.Começa com “Heróis do mar” o primeiro verso do hino português e a estação de metrô logo antes da da minha casa se chama heroísmo. Acompanham o país os restos mortais de seus grandes navegadores, bem guardados em talhados túmulos de marfim. Com sete euros é possível entrar no monastério que guarda Vasco da Gama.

E esse outro passado se encontrou com o passado das nações colonizadas, fazendo produzir pichações como a que li no prédio de Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, órgão que atende aos imigrantes, que insultava os portugueses chamados de “reis”.Quando visito as igrejas com brasileiros, provável  é o comentário de que todo o ouro dali é nosso. Não é incomum a percepção cotidiana dentro dos metrôs ou das cantinas da faculdade de uma tensão que avançou tratados e proclamações: o encontro de passados não é imune.

Mesmo na academia esse encontro produz ainda dissonâncias. Aqui estudei pela segunda vez a Carta de Caminha na universidade. E pareceu-me mesmo outra carta. Da minha primeira leitura feita numa cadeira da sociologia numa universidade latino-americana me ecoam termos como “etnocentrismo”, “usufruto instrumental da natureza” e “assimilação cultural”. Na segunda leitura, feita numa cadeira de literatura, discussões formais sobre as figuras estilísticas usadas pelo autor, acerca do enquadramento de o documento poder ser considerado ou não o primeiro documento literário brasileiro,  da influência do espanhol no português antigo, constatemente permeadas pela ênfase introdutória da necessidade de ler o conteúdo da carta à luz de sua época. Levei minhas notas antigas para me auxiliarem na nova aula. De pouco me valeram.

Dez anos antes fiz a sétima série. Na primeira aula de geografia, o professor nos pedia para completar a sua frase “Quinhentos anos de…” com o substantivo que julgássemos mais adequado. “Descobrimento” foi a primeira resposta da turma, rejeitada com fervor. “Ocupação”, disseram alguns, “colonização” palpitei, “achamento” disseram outros até que palavras da ordem de “dominação” e “exploração” finalmente contentaram-no e encerraram o leilão léxico-ideológico.

Não sei se os anos trarão menos desencontros, pichações provocativas e notas desaproveitadas. Ensejo que me permitiria fazer um parágrafo conclusivo trazendo para a mesma  frase “um outro passado” e “um outro futuro”retomando o título e produzindo um jogo cruzado de palavras um pouco cafona e otimista para as relações entre Portugal e os países destacados de amarelo. E isso apesar de eu apreciar textos cíclicos com finais alentadores.

(Túmulo de Vasco da Gama, Lisboa)

(Esta e as seguintes: Parque “Portugal dos Pequenitos”, Coimbra)

Acordando com outros pássaros

Posted in Uncategorized by Andreza Pereira on setembro 3, 2010

 

Como Cuiabá, seu nome vem de seu rio. Se o tratado fosse respeitado, nosso rio também teria sido seu e talvez fosse outro o nome que fala da cuia que caiu. Mas o ouro faz descumprir os tratados.

Não houve o ouro do tratado, mas houve os ursos e as árvores. Um urso faminto por árvore se tornou pedra de mais fazer esperar a vez pra dar a companhia na fotografia. E sozinho o urso faminto concorre com tantos cavalos em praças que levam  cavaleiros e espadas. Ele que não tem homem nem espada ganha na espera da vez para a fotografia de todos os cavalos. Ele que só tem fome.

E há também os homens pensadamente empedrados perto dos museus. O turismo precisa das pedras. E o grupo guiado pára ali porque tem um Velásquez e mais a frente o restante espera por ela que quis um retrato com Goya.Com suas paletas nas mãos ,parecem interrompidos a toda hora de seus esboços para esse compromisso a que consentiram quando foram feitos pedra e que os impede de terminar a obra que vai assinalar a grande volta. Já não se pode descumprir os tratados.

E nos museus que eles rodeiam, tanta gente na fila à espera de ver Picasso, Miró e Dalí nas últimas duas horas do dia, que são gratuitas. Mas duas horas não dão pra tanto quadro de museu  e há que se fazer um plano. Há que se fazer um plano e ignorar impiedosamente todo o artista cujo nome nada faça recordar, toda a obra menor, toda a escola de transição. E como num revisionismo involuntário editar a história da arte espanhola porque o que há são as duas horas.

 A presença de pessoas com ternos pretos com as mãos sobrepostas ao corpo ao lado de um quadro auxiliam na empreitada revisionista. A presença delas sempre vigia uma corda que delimita a distância para a vista de um quadro. O plano inclui quadro com cordas.

E diante das cordas, param as pessoas. Se ainda fosse a rainha do país, num mundo quase sem rainhas, haveria um protocolo que dissesse o que fazer, talvez um toque de mão, uma inclinada de cabeça. Mas não há protocolos para o Picasso. E quando o Picasso aparece, com corda e terno preto, as pessoas, olhando para os lados, não sabem se podem tirar uma foto, se devem tirar um foto, se olham a Guernica somente, se olham e se recordam. E quando tiram uma foto, seria sorrindo como quem encontra depois de uma longa espera ou em respeito fazendo um rosto fase azul? E tem ainda uma  pequena caminhada que ajuda a saber o rosto da foto.As pessoas têm de sair da sala porque só podem tirar fotos do quadro da sala ao lado. Mesmo após a caminhada, eu não soube.

E num andar com menos cordas e pessoas, há as mostras de arte contemporânea. E havia essa sala de um artista de Nova Iorque cheia de lixo e roupa suja no chão. Mas percorrendo a obra, sou severamente advertida por pisar no lixo. Havia também uma corda que eu não vi.

E as horas gratuitas acabam e anoitece. Quando anoitecia nos meus 10 anos, eu comia churros. E nas padarias, tantos sabores que não existiam no carrinho na frente da minha escola…Mas era noite, me disse a garçonete. Parece que eles não comem churros à noite. Quem sabe o costume mudaria até eu ir embora no outro dia.

E pra dentro da noite sem churros, tantas pessoas saíam com a alegria e a força de quem tinha dormido a sua siesta. Tantos restaurantes de tantos lugares diferentes na mesma rua. E  diálogos idiomáticos confundidos ao pedir o nosso jantar. O que pega e torna às vezes mais difícil que a clareza da diferença é essa semelhança cinza. Mas por todo canto, as criancinhas tão pequenas falando em outra língua.

E no fim da noite, a mulher que treinou vinte anos pra dançar o flamenco num grupo que se apresenta há muito tempo junto. Mais o olhar do rapaz do violão que ainda se surpreendia quando ela batia mais forte o sapato com ferro nas pontas no chão de madeira.

O dia acabou e começou outro. E foi bom conhecer Madri e acordar com outros pássaros.

Da minha janela

Posted in Uncategorized by Andreza Pereira on agosto 12, 2010

 

 

Eu tenho uma nova janela. Já não se vê copos de leite no matagal, casas coloridas ou uma igreja suspensa, mas uma construção. Uma construção de um prédio comercial.

Pontuais, chegam  os homens da construção.Usam coletes amarelos. Posso ouvir algo do que falam sobre fios ou tijolos. Já se pode ver as salas idênticas em que chegarão pontuais os homens do comércio.

No meio do dia descem todos para o almoço e depois se sentam no chão manchados de tinta branca rindo coisas altas.Depois voltam a fazer barulhos maquinais indistinguíveis de serrar, triturar ou misturar.

No vidro de cada sala há uma folha branca pregada com só um pedaço de fita que deixa as pontas soltas. Desconheço o que está escrito do outro lado. Talvez algo para lembrá-los da importância do uso do capacete e das luvas. Talvez um esquema com as características de cada sala. Só posso ver o branco avesso dos dizeres. Seria para todos que passam pela rua o aviso de segurança no vidro se o papel estivesse colado ao contrário.

Nada acontece na construção quando anoitece. As pontas soltas dos dizeres se balançam. O poste da frente se acende e ao redor dele se amontoam mosquitos que acham que lâmpada é lua.

Ignorava as estações e toda a troca de folhas

Posted in Uncategorized by Andreza Pereira on agosto 4, 2010

 

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Eu nunca tinha pensado no verão. Eu nunca tinha experimentado o contentamento do sol que aparece nem visto o burburinho efusivo no metrô pelos vestidos libertados do armário.“So lovely the sun has come out”, as manhãs plagiando os romances ingleses.Eu nem sabia do verão e dos horários estendidos nos museus e na passagem dos ônibus. Não sabia da abundância nos mercados dos sucos das frutas tropicais, das descrições nas embalagens que informam da manga “fruto vindo de frondosas árvores que fazem sombra para as casas tropicais e faz lembrar o sol”, da sentida ausência dos sucos de uva ou das bananas tão caras. Das casas de espetáculo que constróem um palco exterior para os pés de junho. Das mulheres que se deitam de biquíni nas gramas das praças públicas, lotam as praias, as fontes e o mar frio numa gratidão pelos 25 graus.  Ignorava as estações e toda a troca de folhas.

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Elas não se enfeitam como nós querendo a beleza explícita de uma estampa floral. Elas prendem o cabelo num coque alto e blasé, usam chuteiras douradas, oxfords com meias calças estampadas, acessórios néon e blusas xadrez num coordenado particular. Enchem os cabelos com grampos pra aparecer, usados com simetria pra formar alguns xis, círculos ou fileiras.Têm cortes bem curtos pra aparecer a nuca e passam os cachecóis de tecidos grosso de modo a que fiquem sem nós ou acabamentos.

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No hemisfério norte a lua que se vê é a lua de ponta cabeça do hemisfério sul.

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Machucar se diz magoar.

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Onde há um com licença ao desligar o telefone e um outro ao sentar ao seu lado no metrô,o adeus pode separar os falantes do amanhã e as crianças usam ênclise aos quatro anos.