Escritosdoporto's Blog

E tudo começa pela espera

Posted in Uncategorized by Andreza Pereira on março 26, 2010

   No final da tarde de hoje, enquanto esperava pelo ônibus que me levaria para casa, dezenas de gaivotas voavam à minha frente demorada e acuradamente num céu de pôr-de-sol. Se tivessem tintas em seus rabinhos, aposto que dariam a aparecer a uma flor arabesca de inegável precisão matemática. No ônibus que chega, ninguém,ao entrar, cumprimenta com nem mesmo um aceno de cabeça o motorista que trabalha sozinho no veículo com seu terno e gravata azuis. Gravata parecida havia numa loja de quase tudo por 1,50 euros, gravatas em caixas dispostas ao lado de chocolates no balcão. Sim, aqui também tem loja de 1,50. Não sei, talvez a crise econômica pela qual o país passa tenha feito com que se multiplicassem  lado ao lado aos numerosos cafés e aos açougues que vendem coelhos  frescos. Parece que os portugueses não reagiram muito bem ao Euro. -Com saudades do escudo? Era a fala de Fernando Pessoa em cartazes promocionais de um supermercado anunciando uma bandeja de iogurte por 0,40 euros. A princípio, a frase me parecia uma piada interna, uma forma século XXI de demarcação de fronteiras nacionais, mas a internet me instruiu que o escudo era a moeda vigente logo antes do Euro. Na minha faculdade, os alunos usam a instrutiva internet em espaços que servem também como sala de aula, onde, então, só permanecem os que fazem a disciplina. E vendo fotos de pessoas queridas e distantes, me inteirando da situação eleitoral do Brasil, surpreendo-me com uma sala quase vazia e uma mulher que falava à frente sobre um relatório de sistemas da informação que deveríamos entregar na próxima semana. A inadequação me indica o caminho da rua onde a Euroviagens me garante que com ela eu vou até o fim do mundo e depois me mostra a foto de um índio com penachos segurando um azeite português: o sonho de análise de discurso dos meus professores de Antropologia. Tomo então o ônibus, não sem antes me lembrar de que naquele mesmo ônibus, um dia antes, duas senhoras comentavam entre risos o fato de um casal de turistas chineses tirar fotos de uma grande bota de barro que fica no meio de uma praça no centro da cidade. -Olhe, tirando foto da bota da madeira!, se espanta uma. -Mas eles tiram fotos de tudo não,é?, concorda a outra. -Pois. E eles nem devem saber o que ela significa, arremata a primeira. Se ouvissem das gaivotas, elas ririam de mim.

Anúncios

O mundo roda e tudo muda sem parar

Posted in Uncategorized by Andreza Pereira on março 23, 2010

Portugal é muito pro meu coração.

Hiato atlântico

Posted in Uncategorized by Andreza Pereira on março 17, 2010

   E daí que um Atlântico e incontáveis movimentos migratórios depois, a o que a gente fez no Brasil foi uma releitura à moda da língua de Camões. Eu não sei, tecnicamente, como se deram as influências linguísticas todas que fizeram com que a gente falasse como a gente fala. A questão é que é notável como portugueses e brasileiros falam diferente. 

   Eu pensei que ia ser mais fácil, que o lado esquerdo do meu cérebro, responsável pela linguagem, iria fazer umas ligações neurais a mais, mobilizar um pouco de massa cinzenta, chamar à tona umas pastas do arquivo morto de quando eu estudei História Colonial no colégio e fechou o Brasil. Mas não, not really. Às vezes, durante uma aula comprida , ministrada aqui, no português de Portugal, meus ouvidos podem simplesmente abstrair com o ritmo de fala e eu, por breves momentos, achar que ouço uma outra língua, escandinavo, russo ou alemão. Bem assim como quando a gente aperta os olhos e passa a ver borrões é quando o meu ouvido relaxa e ouve russo. E eu não falo só do vocabulário, do léxico que é diferente como nas palavras bicha, rapariga, auto-carro, telemóvel, montra…Com isso se lida até rápido. Falo mesmo é do ritmo, da pronúncia, dos modos de tratamento, das conjugações verbais.

   Quando eles falam, tudo soa como uma música pra mim, como a minha deixa pra entoar a próxima parte de uma canção de roda. A leitura das “paragens” pela voz gravada dentro do metrô então me parecem exercícios de alcance tonal. E permanece a impressão  de que boa parte da língua se constitui de proparoxítonas. 

   Aqui o reino é da segunda pessoa do singular, quase nada de você, quase nada de senhor, ótimo pra treinar conjugação, tanto no indicativo como cortando o s no imperativo: um laboratório pra quem vai prestar vestibular. Ah sim e eles usam muito o diminutivo: beijinhos, um bocadinho, até loguinho. E sobre o gerúndio, quase não se ouve, acho que nem no telemarketing.

   Mas até agora o momento-emblema da minha aproximação do modo da língua por esses lados foi bem na minha chegada. Conheci o rapaz da Universidade do Porto que cuidou de toda a burocracia da minha mobilidade entre as universidades desde dezembro. E ele me pergunta formal e polidamente: – A Andreza fez boa viagem? Alguns momentos e pontes neurais inúteis do lado esquerdo do meu cérebro depois, respondo: -A Andreza sou eu. Ah, tem outra Andreza? Ele rindo e avermelhando diz que sabe que a Andreza sou eu.

   Enfim, enfim. Fiquem então sabendo que a Andreza sou eu e que nós ainda nem falamos da Angola.

Do frio e da relativização das necessidades humanas

Posted in Uncategorized by Andreza Pereira on março 13, 2010

   Porto é uma cidade fria. Fria de você olhar pras vitrines e ver que a nova coleção está cheia de vestidos e sentir um raiar de esperança no peito. Mas deixemos a esperança e voltemos à realidade: Porto é fria e venta muitíssimo. É comum que os brasileiros que moram aqui há mais tempo digam que os portuenses nascem com habilidades inatas de segurar guarda-chuva. A questão é que o vento é forte a ponto de nos desequilibrar e de virar a armação dos guarda-chuvas, quebrando a estrurura metálica muitas vezes. Então, há toda uma técnica milenar portuense herdada dos bárbaros e incorporada evolutivamente de segurar o guarda-chuva num dia de ventania impedindo que se quebre. Há inclusive filmes que passam na sessão da tarde daqui com mestres anciãos ensinando aos infantes como segurar o guarda-chuva e assim vingarem-se da força brutal da natureza que quebrou o guarda-chuva de seus ancentrais.

   Mas, então, Porto é fria e quando você chega em casa e encontra as cobertas depois de um dia frio, hostil e ventoso, a busca pelo calor é tudo o que se bebe e que se come, o alfa e o ômega, o princípio e o fim. Se você está abrigado numa pilha de cobertores arduamente postos em simetria vertical e sente sede, a sede pode esperar. Se tem de estudar o nascedouro ocidental da noção de política, os gregos podem esperar.  Se tinha de passar aquele creme que deixa suas maçãs ótimas no outro dia, a juventude pode esperar. Se aquele livro maior ficou sobre  aquele livro pequeno formando um arranjo desarmônico sobre a sua escrivaninha, o transtorno obsessivo compulsivo pode esperar. Enfim, é toda uma filosofia budista de desapego a que o frio traz. Nem toda a antropologia com seus discursos de alteridade, construção síginica cultural e estranhamento age tanto para a relativização das necessidades humanas como o frio age. É quase um niilismo, é quase uma transcendência: é como um modo outro de ver o mundo.

Cidade do Porto, Portugal

Posted in Uncategorized by Andreza Pereira on março 9, 2010

   Aqui as ruas são estreitas e estreitos os caminhos que nos levam ao passado: inevitável pensar na história que nos cruzou, Portugal e Brasil. Nas igrejas banhadas a ouro choram em nó madonas ascendentes e negros em banzo. A língua na boca dos nativos produz sons  fortes de ritmadas percursões. A moça que nos vendeu bijouterias disse que a língua do Brasil é o português com açucar. -São brasileiros?, nos perguntam como a conhecidos de longa data. Os peixes no restaurantes nos lembram da proximidade com o mar e com o quinhentista oceano. O anúncio na televisão convida a fazer um cruzeiro pelos pontos nos quais as esquadras passaram. Os nomes das ruas nos falam de heroísmo e de um Cabral que houve para além de nossos livros encapados com plástico azul xadrez. E procuramos o mítico bigode das portuguesas, mas não o encontramos: elas são bonitas, esguias com suas cabeleiras negras subindo e descendo grandes ladeiras  pontilhadas de lojas de vinho com suas botas tão altas. Na chegada pelo ar um filme francês sobre uma história entre um japônes e uma senhora que fez um novo corte de cabelo para encontrar-se com o amor. No aeroporto, um ônibus nos muda de prédio com homens altos gritando destinos para passageiros confundidos por Babel. Na chegada pela terra, um taxista compara a tranquilidade da cidade do Porto à violência metropolitana de Lisboa. -É porque, ele diz, nada contra eles, previne, os africanos, Lisboa está cheia de africanos.  No dia seguinte uma gaivota de uma pata só voa sobre a universidade que frequentarei, onde na primeira aula um professor nos perguntará diletante o que é sociologia.