Escritosdoporto's Blog

Minhas fotos 3×4 nunca se foram tão rápido

Posted in Uncategorized by Andreza Pereira on julho 25, 2010

Minhas fotos 3×4 nunca se foram tão rápido. Estando num lugar ao qual você não pertence, grande é a necessidade de se provar. Preciso de novas.

Sempre me lembro bem de todas as vezes em que tiro fotos novas porque tenho esse costume de nunca dar todas, deixando sempre uma de cada envelope. Resistindo a piscar os olhos por causa do flash, sei que de todas restará a que será mais uma parte. E de antemão me lembro do que entorna o fazer daquilo que vai ser usado pra lembrar.

Volta e meia junto as remanescentes. Alinhadas, elas são a régua de parede adulta. Cada um dos nossos rostos contraídos e encabulados são como frames que, se folheados rápido, criam a ilusão de movimento. E dessas coisas que a gente não acompanha, porque vão conosco tão perto, nas fotos parecem ser do de repente. E de repente cabelos que cresceram, linhas que surgiram, roupas de que você nem gosta mais, coisas com que você nem se importa mais.

Mas dessa vez o que vi nem foram os cabelos, as roupas ou as importâncias. Foi que as minhas fotos 3×4 nunca se foram tão rápido. Assim como se o fundo branco fosse de clarear também o tempo.

 

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As que cozinham pros pensadores

Posted in Uncategorized by Andreza Pereira on julho 15, 2010

Dá 12h30, final da última aula matutina da Universidade do Porto. Sob as cabeças de estudantes e professores  corpos  os interrompem pontualmente pra se encontrarem com toda a imanência da comida. Na sala de aula, o braço fez em histe seu último esforço  inquiridor enquanto a metros dali o dourado já indicava o fim da grelha.E assim saem de todos os cantos os pensadores famintos, pressupondo nada mais que comida, defendendo nada mais que comida, idealizando nada mais que comida.

E na altura do encontro, o  fósforo torna-se o fim preciso da ligação neural que o fez entender por fim a equação, o arroz, o suscitar nela de todo o potencial plástico do branco e  a espinha remanescente com o alface, a comprovação empírica que lhe faltava da descoberta pioneira da anatomia dos vertebrados. 

Nas mesas,os pensadores sozinhos quase nunca  se sentam nas mesas onde  já tem alguém, e quando sim, quase nunca na cadeira de frente a um outro. E nisso têm em comum os refeitórios de pensadores, os metrôs e as salas de espera por consultas médicas.Nas paredes , cartazes ilustram o bem comer. Sua mão fechada indica o tamanho necessário da porção de carne a se ingerir por dia. E ainda  alimentos dipostos em pirâmides, conselhos sobre o abandono da massa branca, o alerta de que os portugueses ingerem quatro vezes a quantidade de óleo recomendada e um positivo ao lado de um peixe com os olhos bem abertos.

E  atrás dos balcões e portas, longe dos diálogos e dos evitamentos, estão as que cozinham pros pensadores.Pedra lascada,tomada da Constantinopla, rebaixamentos planetários depois ainda eram elas as que ali estavam, elas, além-mar ou aquém-mar, como se o espaço da cozinha fosse como o de um pertencimento, mais imune que  o heliocentrismo ou o pescoço dos reis.

Tomara que amanhã depois de descascarem o alho, vigiarem o arroz,  eliminarem os talos, desviarem os olhos da cebola,elas, exaustas e urgentes, confundam colher de sopa com de chá, salsinha com agrião,gelatina com possibilidade e desenformem o mundo.

Vuvuzela: uma nova palavra pro mundo

Posted in Uncategorized by Andreza Pereira on julho 2, 2010

 

 

 

 

                                                                                                                                           (Imagem: Andrewthecook)

Então, vuvuzela. Pouco tempo atrás essa palavra quase onomatopaica tinha seu uso restrito a um país. Hoje maxilares, línguas e mandíbulas já amaciados às demandas do espanhol, italiano, guarani, japonês ou turco têm de se adaptar mais ou menos forçosamente pra exprimir uma nova palavra que chegou pro mundo.

Ela devia estar numa grande sala bege, ansiosa com a sua senha esperando pra ser chamada pra sala das palavras globais. Vendo seu número se aproximar, ela olha num misto de triunfo e comiseração para as outras que ainda vão ficar ali lendo revistas antigas por mais algum tempo. Do seu lado,uma palavra tímida e bem-feita carrega a sua senha: ela só vai sair dali em 2015, quando um escritor e filósofo francês vai ser Nobel de literatura e ela vai descer do pavimento dos intelectuais pra arranhar a gargante de toda a gente. Índice da indústria cultural, denunciarão alguns. Mas ela nem vai se importar, ela só há de respirar intensa toda a luz de seus cinco meses até voltar aos velhos costumes de ser molhada com água com gás em conferências sobre o sentido ontológico da obra de Heidegger para o ethos pós-moderno.

Sua vez se aproximava, ela ajeitou seus vês, testou seu z pra fazer que ele se parecesse mais com o som do objeto que nomeava, não queria decepcioná-lo, decerto que não. Sim, seu número chegara. Levantando-se depois de uma longuíssima espera, forçada por circunstâncias inumeráveis, ela olhou por fim em volta a todas que estariam ali ainda por meses, anos ou décadas. Viu ainda do lado de fora, aquelas que nunca poderiam nem mesmo esperar: nunca haveria o tempo delas e engraxavam silenciosas as palavras que não paravam de chegar pra esperar, em troca de um rodapé, uma paronomásia em ausência, o emparelhamento numa rima, uma confusão da Luísa no ditado da alfabetização: qualquer coisa. “Vuvuzela?” “Sim, sou eu.” “Faça o favor de me acompanhar.”

Firmando os passos, ela ia atrás de uma palavra esbelta e ardilosa que era no fundo como as que estavam na sala bege, mas o trânsito entre as duas salas lhe acendera as faíscas da ambição e lhe levantaram três is intercalados e atentos. Por trabalhar ali tantos anos, trocava olhares com as palavras do mundo, estabelecendo contatos e cruzando favores, um dia ela também estaria lá. Diante de uma pesada porta fechada, pediu que a palavra registrasse ali seu código de reconhecimento, de uso único e intransferível, para que a trava cedesse.“ A senhora já pode entrar”, completou estendendo seu braço esquerdo.

Sob grandes feixes de luz ela contemplou a grande sala das palavras do mundo. Um certo silêncio tomou o lugar, só entrecortado pela risada bonachona de uma latina que ainda não tinha se virado pra vê-la. Ouviu cochichos, “de onde ela vem?”, perguntavam. Procurou  ali entre todas algumas que vinham de onde ela vinha. Avistou-as, poucas, por fim e tomou o lugar que lhe estava reservado. Aos poucos, o volume das conversas voltava ao normal.

E ali ela permaneceu durante o tempo que lhe cabia, recebendo olhares inquiridores e palavras que lhe lembravam da sua brevidade naquele lugar, mas lá ela estava, imensamente contente, imensamente global. Havia recebido um aparelho com o qual podia escolher ver estatísticas, vídeos, fotos, áudio ou mesmo closes em tempo real das suas aparições. Se viu então repetida como o bater de asas do beija-flor nos noticiários, tornar-se a terceira sugestão na digitação de “vu” no google, na frente do vulcão da Islândia ou do download do vuze. Era aclamada depois de gols, passava pela boca de especialistas de grandes universidades que ponderavam sobre decibéis, aliviava desconfortos em elevadores, explodia nos dentes de vizinhos irritados, e corria o mundo seja metida em  gritos de camelôs ou tornando-se uma rajada de graça instantânea entre risos acompanhados por champanhe e instrumental. Nunca pudera imaginar tudo aquilo.

Sua hora de partir chegava. Já pensava cabisbaixa em seu futuro habitando no meio das palavras como, era e mesmo. Até gostava delas, mas não juntas, não naquela ordem, não com aquele gancho pontuado no final. Mas decerto haveria de contar quando voltasse a todos quanto pudesse do tempo em que foi por um momento tudo o que podia ser pras bocas das palavras do mundo.