Escritosdoporto's Blog

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Posted in Uncategorized by Andreza Pereira on outubro 28, 2010

Gosto muito de P.S’s. Não soube disso sempre. O esclarecimento veio quando uma colega me parou no meio da aula, olhando pro meu caderno e perguntou por que eu escrevia de baixo pra cima na folha. Respondi que não escrevia de baixo pra cima, mas as frases de baixo eram os meus P.S’s e a matéria mesmo era a parte de cima. Ela se contentou com a resposta e continuei anotando as coisas sobre algum assunto de teoria social. No intervalo, botei mais reparo naquela folha em que eu tinha mais P.S’s que matéria.

Anotar muito durante as aulas sempre foi o jeito mais pedagógico pra mim de absorver os conteúdos. Levo réguas e marca-textos de  cores diferentes pra fazer pequenos esquemas gráficos durante as exposições. E numa aula sobre as visões de mundo ocidentais,  posso pintar de verde o posicionamento marxista, de amarelo o positivista e de rosa o pós-moderno. E os triângulos, círculos dentro de círculos, tabelas e cores escolhidas têm que ter um sentido extra-visual, o que me ajuda a relacionar tudo depois. Daí, escolho verde pro marxismo porque alguma coisa do marxismo tem que me remeter ao verde e o mesmo com o amarelo e o rosa -como o marxismo defender o realismo estético e lembrar, assim, a natureza, ou o positivismo perceber uma uniformidade na história humana o que se relaciona ao primarismo e à unidade da cor amarela e ainda o rosa pós-moderno ter algo de industrial ou de pop arte de contestação dos paradigmas clássicos-. É todo um aparato de loucura à serviço da cognição.

Na faculdade de Jornalismo, somos treinados a escutar e anotar rápido porque não dá pra pedir pro entrevistado repetir as informações . Então, anotar durante a aula a matéria central, fazer esquemas geométricos coloridos e pontuar P.S’s tem no fim um sentido de simulação profissional encarada com uma tenacidade bruceleeniana. E afinal cada P.S tem algo de seu. Algo que não pôde se encaixar na linha-guia do pensamento professoral, mas nem por isso não mereça um lugar-celulose pra chamar de seu.

No meu caderno atual, dentre os P.S’s ordinários como bibliografias, datas de nascimento e morte de autores, trabalhos a fazer, significação de siglas, há alguns sobre os quais  passaria um marca-texto laranja (a cor para marcações especiais por razões que o leitor não merece expostas) e enquadraria em três tipos ideais:

1- P.S’s “Não sou daqui”

Acho que é o tipo mais recorrente nesse meu caderno . A questão é que tem muita coisa que não entendo nas aulas por ser de outro país. E tantas vezes os professores fazem piadas internas com os alunos e todo mundo morre de rir e enquanto isso eu estou debruçada no caderno fazendo um P.S. Uma vez  teve um jogo no final de semana e a professora chegou na aula segunda-feira com essa : “Braga reza, Lisboa brinca e Porto trabalha”. Geral achou engraçado. Não soube quem jogou, não soube a relação humorística da citação,mas pelo menos fiz meu P.S. pra tentar rir na próxima vez.

Além das piadas internas, o português daqui tem uns usos gramaticais que eu nunca vi mais gordos no Brasil, como isso de usar “imenso” como advérbio e “saber bem” com o sentido de “é bom”. Imagino o que os professores devem pensar ao me verem anotando alguma coisa no início de uma frase deles que ainda nem chegou à informação do conteúdo da matéria.”Gostei imenso!” “Achei imensa piada!” “É claro que sabe bem, mas é preciso ponderar pra decidir.”

E também entra nesse tipo toda e qualquer anotação de alguma coisa que eu acho diferente sob qualquer aspecto das nossas aulas no Brasil, como num pequeno diário de campo de uma excursão etnográfica. Meu último P.S. sobre isso foi: “Eles não têm o menor pudor de fazer sons de excreção nasal durante as aulas. Todo mundo tem lenços de papel, que são vendidos em pacotes enormes nos mercados”.

2-P.S’s “Vão achar meu caderno décadas depois da minha morte”

Esse é meu tipo preferido. Porque nele eu me vejo no direito de poder fazer anotações com um preciosismo tal a falsear que as minhas notas vão merecer atenção a alguém além de mim.  Nas faculdades de humanas, a gente passa  anos ouvindo sobre as manuscritos dos alunos das aulas de Weber, as perscrutações nos cadernos de campo de Malinowski entre os povos trobriandeses, as impressões escritas de Platão, que escreveu sobre Sócrates quando este mesmo não escreveu nada e fica com essa áurea das anotações. E a gente anota idéias sobre relações entre áreas e lampejos pra pesquisas como se elas tivessem  a gravidade das de um filósofo grego andando com a mão no queixo no meio de uma praça de Atenas ou a urgência das de um pensador medieval condenado pela Igreja e cujos pensamentos têm de ser passados adiante. “As aspas nos títulos jornalísticos demarcam o que deve ser lido fora do circuito comunicativo da linguagem”, “É possível estabelecer relação entre o estudo do estilo nas Ciências da Linguagem e o da cultura na Antropologia”, “É relevante o papel pedagógico dos brinquedos infantis na construção social do gênero”.

3-P.S’s “Destino: monografia”

Por fim, têm os meus P.S’s monográficos.  Porque o nosso objeto de pesquisa é um tipo laico(?) de amor e a gente o procura em todo lugar, em toda aula.Todos esses P.S’s levam um asterisco pra eu saber que eles podem ser úteis pra minha pesquisa. E um “a cor de luto quando um papa morre é a vermelha” dito durante uma aula de teoria da literatura em que se explicava  que o conceito de signo é socialmente partilhado pode ser um gancho pra um trabalho sobre a relação entre cultura e identidade psíquica.

A não ser que o professor discurse a partir de linhas mestras relatoriais  mentais invisíveis que o façam começar a fala no ponto 1 e dar o intervalo no sub-ponto 3.5 b)  haverá sempre espaços para P.S’s, porque eles são os true colors de uma aula.A eles hoje a minha estima, porque merecem mais do que estar no título de um comédia romântica hollywoodiana entre gente que não morreu e gente que já morreu.

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Um outro passado

Posted in Uncategorized by Andreza Pereira on outubro 22, 2010

(Padrão dos Descobrimentos, Lisboa)

“E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem. Pero o melhor fruto que nela se pode fazer me parece que será salvar essa gente. E esta deve ser a principal semente que vossa alteza em ela deve lançar”

(Carta de Caminha)

Penso em como deve ser dormir sobre um passado de metrópole. Enquanto na quinta série decorávamos quais eram as únicas duas capitanias hereditárias que deram certo, o que era a lei do ventre-livre ou os nomes dos impostos pagos no tempo da mineração, os pequenos portugueses passam seus marca-textos amarelos sobre os países que Portugal conquistou. Devem no intervalo do jornal da noite pedir aos seus pais que ouçam pra ver se gravaram certo: Angola, Moçambique, Cabo-Verde, Guiné-Bissau, Timor Leste…E depois da prova, o menino cora por ouvir o riso dos colegas que não acreditam que ele tenha errado o mais fácil, ao esquecer de colocar na resposta o Brasil.

Enquanto as imagens feitas pelo Governo Federal ou pelo Banco do Brasil pra falar de nós nos feriados cívicos juntam sob um fundo de batuque os braços tricolores, a identidade portuguesa parece repousar no mar e nesse grande passado quinhentista. Um grande monumento marca em Lisboa a área da costa de onde saíram as caravelas em busca do “novo mundo”, o “Padrão dos Descobrimentos”. É uma dos pontos mais visitados do país e pintado  no chão ao seu lado está uma bússola e ainda próximo um museu marítimo a contar como os desenhos de estrelas mortas ajudaram os portugueses a não se perderem pelo caminho.

Inviável listar o número de praças com símbolos de navegação ou homens com espadas e cavalos.Começa com “Heróis do mar” o primeiro verso do hino português e a estação de metrô logo antes da da minha casa se chama heroísmo. Acompanham o país os restos mortais de seus grandes navegadores, bem guardados em talhados túmulos de marfim. Com sete euros é possível entrar no monastério que guarda Vasco da Gama.

E esse outro passado se encontrou com o passado das nações colonizadas, fazendo produzir pichações como a que li no prédio de Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, órgão que atende aos imigrantes, que insultava os portugueses chamados de “reis”.Quando visito as igrejas com brasileiros, provável  é o comentário de que todo o ouro dali é nosso. Não é incomum a percepção cotidiana dentro dos metrôs ou das cantinas da faculdade de uma tensão que avançou tratados e proclamações: o encontro de passados não é imune.

Mesmo na academia esse encontro produz ainda dissonâncias. Aqui estudei pela segunda vez a Carta de Caminha na universidade. E pareceu-me mesmo outra carta. Da minha primeira leitura feita numa cadeira da sociologia numa universidade latino-americana me ecoam termos como “etnocentrismo”, “usufruto instrumental da natureza” e “assimilação cultural”. Na segunda leitura, feita numa cadeira de literatura, discussões formais sobre as figuras estilísticas usadas pelo autor, acerca do enquadramento de o documento poder ser considerado ou não o primeiro documento literário brasileiro,  da influência do espanhol no português antigo, constatemente permeadas pela ênfase introdutória da necessidade de ler o conteúdo da carta à luz de sua época. Levei minhas notas antigas para me auxiliarem na nova aula. De pouco me valeram.

Dez anos antes fiz a sétima série. Na primeira aula de geografia, o professor nos pedia para completar a sua frase “Quinhentos anos de…” com o substantivo que julgássemos mais adequado. “Descobrimento” foi a primeira resposta da turma, rejeitada com fervor. “Ocupação”, disseram alguns, “colonização” palpitei, “achamento” disseram outros até que palavras da ordem de “dominação” e “exploração” finalmente contentaram-no e encerraram o leilão léxico-ideológico.

Não sei se os anos trarão menos desencontros, pichações provocativas e notas desaproveitadas. Ensejo que me permitiria fazer um parágrafo conclusivo trazendo para a mesma  frase “um outro passado” e “um outro futuro”retomando o título e produzindo um jogo cruzado de palavras um pouco cafona e otimista para as relações entre Portugal e os países destacados de amarelo. E isso apesar de eu apreciar textos cíclicos com finais alentadores.

(Túmulo de Vasco da Gama, Lisboa)

(Esta e as seguintes: Parque “Portugal dos Pequenitos”, Coimbra)