Escritosdoporto's Blog

Um outro passado

Posted in Uncategorized by Andreza Pereira on outubro 22, 2010

(Padrão dos Descobrimentos, Lisboa)

“E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem. Pero o melhor fruto que nela se pode fazer me parece que será salvar essa gente. E esta deve ser a principal semente que vossa alteza em ela deve lançar”

(Carta de Caminha)

Penso em como deve ser dormir sobre um passado de metrópole. Enquanto na quinta série decorávamos quais eram as únicas duas capitanias hereditárias que deram certo, o que era a lei do ventre-livre ou os nomes dos impostos pagos no tempo da mineração, os pequenos portugueses passam seus marca-textos amarelos sobre os países que Portugal conquistou. Devem no intervalo do jornal da noite pedir aos seus pais que ouçam pra ver se gravaram certo: Angola, Moçambique, Cabo-Verde, Guiné-Bissau, Timor Leste…E depois da prova, o menino cora por ouvir o riso dos colegas que não acreditam que ele tenha errado o mais fácil, ao esquecer de colocar na resposta o Brasil.

Enquanto as imagens feitas pelo Governo Federal ou pelo Banco do Brasil pra falar de nós nos feriados cívicos juntam sob um fundo de batuque os braços tricolores, a identidade portuguesa parece repousar no mar e nesse grande passado quinhentista. Um grande monumento marca em Lisboa a área da costa de onde saíram as caravelas em busca do “novo mundo”, o “Padrão dos Descobrimentos”. É uma dos pontos mais visitados do país e pintado  no chão ao seu lado está uma bússola e ainda próximo um museu marítimo a contar como os desenhos de estrelas mortas ajudaram os portugueses a não se perderem pelo caminho.

Inviável listar o número de praças com símbolos de navegação ou homens com espadas e cavalos.Começa com “Heróis do mar” o primeiro verso do hino português e a estação de metrô logo antes da da minha casa se chama heroísmo. Acompanham o país os restos mortais de seus grandes navegadores, bem guardados em talhados túmulos de marfim. Com sete euros é possível entrar no monastério que guarda Vasco da Gama.

E esse outro passado se encontrou com o passado das nações colonizadas, fazendo produzir pichações como a que li no prédio de Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, órgão que atende aos imigrantes, que insultava os portugueses chamados de “reis”.Quando visito as igrejas com brasileiros, provável  é o comentário de que todo o ouro dali é nosso. Não é incomum a percepção cotidiana dentro dos metrôs ou das cantinas da faculdade de uma tensão que avançou tratados e proclamações: o encontro de passados não é imune.

Mesmo na academia esse encontro produz ainda dissonâncias. Aqui estudei pela segunda vez a Carta de Caminha na universidade. E pareceu-me mesmo outra carta. Da minha primeira leitura feita numa cadeira da sociologia numa universidade latino-americana me ecoam termos como “etnocentrismo”, “usufruto instrumental da natureza” e “assimilação cultural”. Na segunda leitura, feita numa cadeira de literatura, discussões formais sobre as figuras estilísticas usadas pelo autor, acerca do enquadramento de o documento poder ser considerado ou não o primeiro documento literário brasileiro,  da influência do espanhol no português antigo, constatemente permeadas pela ênfase introdutória da necessidade de ler o conteúdo da carta à luz de sua época. Levei minhas notas antigas para me auxiliarem na nova aula. De pouco me valeram.

Dez anos antes fiz a sétima série. Na primeira aula de geografia, o professor nos pedia para completar a sua frase “Quinhentos anos de…” com o substantivo que julgássemos mais adequado. “Descobrimento” foi a primeira resposta da turma, rejeitada com fervor. “Ocupação”, disseram alguns, “colonização” palpitei, “achamento” disseram outros até que palavras da ordem de “dominação” e “exploração” finalmente contentaram-no e encerraram o leilão léxico-ideológico.

Não sei se os anos trarão menos desencontros, pichações provocativas e notas desaproveitadas. Ensejo que me permitiria fazer um parágrafo conclusivo trazendo para a mesma  frase “um outro passado” e “um outro futuro”retomando o título e produzindo um jogo cruzado de palavras um pouco cafona e otimista para as relações entre Portugal e os países destacados de amarelo. E isso apesar de eu apreciar textos cíclicos com finais alentadores.

(Túmulo de Vasco da Gama, Lisboa)

(Esta e as seguintes: Parque “Portugal dos Pequenitos”, Coimbra)

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3 Respostas

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  1. Luiz Alfredo Noronha Perin said, on outubro 22, 2010 at 6:51 pm

    “E se mais mundo houvera, lá chegara”
    “Achando o Brasil”
    “Brasil, descoberto pelos portugueses”

    É incrivel como essas frases, ditas pela nação “opressora” soa tão incômoda, tal como garganta inflamada. Lembro do meu chefe, aqui na Guyana, que é do Zimbabwe, e, toda vez que eu digo “quando o Brasil foi descoberto” ele diz “Como assim, descoberto? Não havia ninguem lá? Era uma terra perdida?” E então, tenho que outra ver reformular a frase, dizendo “tá bom, tá bom… Quando o Brasill foi colonizado…”

    E, ao ler o teu texto e lembrar do ouro, senti-me vítima ao lembrar de Dom João… Ah, Dom João…

    Mas, sabe qual é o mais incrível?

    Aqui na “sua” América Latina, somos a nação opressora…

    Pra se ver né? Luxo pra uns, lixo para outros… sucesso para uns, fracasso para outros…

    Bandido e herói, vitima e vilão… apenas pontos de vista, não?

  2. Luiz Alfredo Noronha Perin said, on outubro 22, 2010 at 6:55 pm

    Aliás… CADE AS FOTOS DAS PICHAÇÕES????????

  3. Guilherme said, on outubro 27, 2010 at 3:34 am

    Verdade né. Sempre achei interessante como o hino português era bélico “Às Armas, às armas, sobre a terra e sobre o mar!”. E achava engraçado, que as armas no mar afundariam.

    Mas realmente. São os fragmentos de um outro mundo.


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