Escritosdoporto's Blog

Uma praça no dia de Magusto

Posted in Uncategorized by Andreza Pereira on novembro 12, 2010

 

A praça não sabe que eu a cruzo todos os dias na volta para casa depois das aulas. E ao cruzá-la, ando atrás da maior reunião de pombos do meu trajeto cotidiano.Fatal e infantilmente, me lembro do trecho do Kundera  “Para um amor se tornar inesquecível é preciso que, desde o primeiro momento, os acasos se reúnam nele como os pássaros nos ombros de São Francisco de Assis.” Na minha cabeça, os pássaros em Assis são pombos. Kundera reabilitou-me os pombos pra sempre. Os pombos continuam a andar de seu jeito engraçado como se fosse no princípio,sem saber de Kundera, nem de mim. Todos os dias passos temerosos de doenças respiratórios se afastam deles. Mas  não têm nenhuma parte com Assis ou com o medo.

E têm os bancos e nos bancos, os namorados. E nas pessoas que passam em frente aos bancos algumas cabeças viradas de evitamento. E os bancos e os evitamentos me reescrevem uma crônica do Vinicius.No texto, ele defendia os namorados de um projeto de lei numa cidade do interior do Brasil que pretendia impedir que estivessem juntos nas praças. Vinicius dignificou-me os namorados nas praças pra sempre.Os bancos não sabem. Ao sentar sobre eles os namorados, só gemem lembrando-se do bosque natal, mas desconhecem toda a espécie de evitamentos e de sonetistas modernos.

No meio da praça, há um grande monumento, símbolo da invencibilidade do país face às invasões francesas. E o chumbo do homem armado no meio da grande figura nada tem de bélico.

Nos últimos meses,  era comum que no fim da praça houvesse uma camada de fumaça cheirosa. Na calçada em frente, assava-se castanhas numa banquinha. Longas filas se formavam pra comprar as castanhas vindas em sacos brancos de papel. Soube há poucos dias do Magusto,  uma festa tradicional do país em que se come castanhas e se bebe o vinho em novembro pelo dia de São Martinho, o onze. O fogo que queima as castanhas as amolece apesar de nada saber de santidade.

As flores brancas no meio das gramíneas nos canteiros da praça não sabem que cheiram ao perfume que trazemos no pescoço.

Anúncios

2 Respostas

Subscribe to comments with RSS.

  1. luiz alfredo said, on dezembro 15, 2010 at 11:32 pm

    Pois é… pra mim, nos bancos há rabiscos e propagandas, e não namorados.
    Aliás, os namorados hoje em dia sabem cada vez menos de “evitamentos”, principalmente em público, ahuahuahuahu…

    ps: eu senti o cheiro doce das castanhas… fiquei até com fome, hummmm!

  2. luiz alfredo said, on dezembro 15, 2010 at 11:51 pm

    “(…)só gemem lembrando-se do bosque natal, mas desconhecem toda a espécie de evitamentos e de sonetistas modernos.”

    fiquei a imaginar o sentido de “bosque nata”, confesSSo…


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: