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Três quartos das horas do dia a vida deve usar pra se repetir

Posted in Uncategorized by Andreza Pereira on janeiro 8, 2011

                                  Igreja de Notre Dame, Paris, dezembro de 2010

Três quartos das horas do dia o mundo deve usar pra se repetir. Os lixeiros se esvaziam pra juntar lixo de novo. Os copos se limpam pra tocarem de novo as bocas. As parafinas que já se encurtaram pra subirem aos céus esperam o funcionário acordar pra darem lugar a novas fés. A arara carrega o véu que vai se arrastar pra uma nova jura amanhã. Três quartos das horas do dia o mundo deve usar pra se repetir.

No prato, o pão antecede uma nova fome.O cabelo esticado do embaraço nada tem em si de evitar um novo. A lâmina nada pode contra o mamífero que volta. Nem todo o ar chega para o peito que refluxa. Três quartos das horas do dia o corpo deve usar pra se repetir.

Há um estoque novo no almoxarifado com tinta azul fresca pros carimbos e cruzamentos treinados em ver placas amassadas. Há pontes exaustas de suicídio e pacotes de grãos habituados em medir a inflação. Ajuntamentos de anéis de bueiro e de boletins de ocorrência de feriado. Três quartos das horas do dia a cidade deve usar pra se repetir. 

O vê dos pássaros em bando é que consegue ver a ressaca das águas, os calos sonoros dos galos, o empilhar das circuferências dos girassóis, o esgaçar dos ventres, o acúmulo do sol que clareia o verde das folhas.

Talvez haja um depósito de vida usada. Cheio de adesivos que perderam a aderência, epiderme morta, ar já esquentado nos pulmões,segredos inutilizados, carbono de amores gastos, saias rotas, facas cegas e esperanças salobras. Enquanto houver espaço, a vida se repete. Se repete.

Três quartos das horas do  dia a vida deve usar pra se repetir.

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Olhos pra Paris

Posted in Uncategorized by Andreza Pereira on janeiro 6, 2011

   Chega-se a Paris pisando um solo irrigado por um daqueles esquichos rodantes de jardim. Dentre baguetes, salto Luis XV,Binoche, espartilho, brioches pros famintos de pão, mon cherry, o despudor da liberdade guiando o povo, cabeças monárquicas, la vie en rose,pierrot e Bardot, não há imagem que baste. Nossos pobres olhos igualmente encharcados de coisas pra lembrar não têm descanso na cidade esguichada pro mundo.

   “Paris é um lugar em que se tem a impressão de já ter estado porque tantos filmes, livros e histórias se passaram nela” foi como começou o nosso guia holandês. Acrescidos aos lugares que se visita porque ali aconteceu a queda da Bastilha, ou por expor uma chama eterna que queima pelos mortos nunca identificados nas duas grandes guerras ou por guardar os restos mortais de Napoleão, são os a que você vai porque foi o bar onde a Amélie Poulain trabalhou ou a ponte ladeada de cadeados presos por casais que inscrevem suas iniciais e jogam as chaves no rio Sena, em que a Carrie  encontra o namorado com seu vestido de tule verde.

  Amparam os olhos os ouvidos cheios de francês. Uma sombrinha de rendas ornaria com essas mulheres chamadas de mademoiselles. De todos os  meus “Do you speak english?”, apenas uma resposta afirmativa assertiva pra contrastar com os inúmeros “um pouco” num francês  um tanto desgostoso.

 Pra além dos lugares e da língua, têm as pessoas saindo das padarias com grandes  baquetes embaixo do braço, os caminhos tão longos de escadas, passagens, viradas e Edith Piaf nos metrôs, os bolos em forma de tronco de árvore, a quantidade enorme de queijos no mercado, os olhos multiformes seguindo os olhos da Mona Lisa, o croissant em todo o canto, um pão que se chama escargot,os seis chaveirinhos da Torre Eiffel gritados por um euro, açucar em pedrinhas, a temperatura negativa (que eu não conseguia imaginar assim como a eternidade e o universo expandindo ninguém sabe pra onde), as entradas com banana seca, passas e lascas de coco,o vinho quente, a Maya e o Raj falando “bonjour”, os lugares-comuns assumidos em noites com tanta luz.

  E cobrindo olhos, ouvidos e pele teve a neve que caía inocente de sua ciência de primeira neve. A minha primeira neve nessa cidade que esguicha pro mundo inteiro e que eu levo em olhos sem descanso.